A Real Lição das Chacinas nas Escolas

Wall Street Journal, 27 de Março de 1998

Por John Lott Jr., Professor de Direito e Economia na Escola de Direito da Universidade de Chicago. Ele é autor de "Mais Armas, Menos Crimes: Entendendo Criminalidade e Legislações sobre o Controle de Armas" (University of Chiacago Press, 1998).

O horrorosa chacina desta semana em Arkansas, previsivelmente, provocou pedidos de mais legislação controlando armas de fogo. Mas vale a pena notar que a chacina ocorreu num dos poucos lugares em Arkansas onde a posse de armas é ilegal. Arkansas, Kentucky e Mississippi-- os 3 estados que tiveram chacinas em escolas públicas nos últimos 6 meses--, todos permitem adultos portarem armas ocultamente, exceto em escolas públicas. De fato, lei federal em geral proîbe a posse de armas a 1.000 pés [nota do tradutor: 300 metros] de uma escola.

Proibicionistas concedem que o banimento de armas ao redor das escolas nao funcionou tão bem quanto era planejado-- mas a resposta deles foi solicitar mais regulamentação sobre armas. No entanto, o que parece ser a política mais óbvia pode na verdade custar vidas. Quando leis controlando armas de fogo são aprovadas, são cidadãos obedientes a lei, não os criminosos, que aderem às mesmas. Obviamente a polícia não pode estar em todo lugar, e portanto tais leis riscam criar situações onde os bons cidadãos não podem se defender dos bandidos.

Considere um fato raramente mencionado durante a maciça cobertura da mídia sobre a chacina de Outubro de 97 numa escola em Pearl, Mississippi: um diretor-assistente buscou uma arma no seu carro e fisicamente imobilizou o atirador por 4.5 minutos enquanto esperava pela chagada da polícia. O atirador já havia fuzilado 2 estudantes (após ter mais cedo fatalmente esfaqueado sua mãe). Quem saberá quantas vidas o diretor-assistente salvou pela sua imediata resposta?

Permitir que professores e outros cidadãos obedientes a lei portem armas ocultamente nas escolas não só facilitaria interromper um tiroteio em progresso, com também poderia ajudar a impedir que os tiroteios jamais ocorrecem. Há 25 anos atrás ou mais, em Israel, terroristas pegavam suas metralhadoras e atiravam nos civis. No entanto, com a expansão do porte de armas por cidadãos israelenses, terroristas logo notaram os cidadãos comuns ao seu redor sacando armas contra eles. Basta dizer que terroristas em Israel não mais engajam em tais fuzilamentos-- eles mudaram pro uso de bombas, uma tática que não permite que a vítima-alvo responda.

O tiroteio recente de estudantes em Israel melhor ilustra estes pontos. Em 13 de Março de 97, 7 meninas israelenses de sétima e oitava série foram mortas a tiros por um soldado jordaniano enquanto elas visitavam a 'Ilha da Paz', na Jordania. O Los Angeles Times reportou que os israelenses "obedeceram os pedidos dos jordanianos de deixar pra traz suas armas durante sua entrada no enclave da fronteira. Caso contrário, eles teriam sido capazes de parar o tiroteio, muitos pais afirmaram".

Junto com o meu colega William Landes, estudei tiroteios com múltiplas vítimas nos E.U.A. de 1977 a 1995. Estes foram incidentes onde pelo menos 2 pessoas foram mortas ou feridas em local público; para enfocar no tipo de tiroteio ocorrido em Arkansas, nos excluimos tiroteios que foram subprodutos de outro crime, tais como roubo. Os E.U.A. tiveram, na média, 21 tiroteios deste tipo por ano, com uma média de 1.8 pessoas mortas e 2.7 feridos em cada um.

Nós examinamos uma gama de diferentes leis sobre armas, assim como alguns métodos de prevenção, tais como a pena de morte. No entanto, somente uma política foi bem sucedida na redução de mortos e feridos provindos de tais tiroteios-- permitir que o cidadão de bem porte uma arma ocultamente.

O efeito das leis sobre o "dever-de-emitir" porte de armas-- que dão aos adultos o direito de portar uma arma ocultamente se eles não possuem um histórico criminal ou de doença mental-- tem sido dramático. Trinta e um estados [n.t.: americanos] agora possuem tais leis. Quando estados aprovam tais leis durante os 19 anos estudados, o número de tiroteios com vítimas-múltiplas declina 84%. O número de mortes causadas por estes tiroteios caiu na média 90%, o número de feridos 82%. Maiores taxas de aprisionamento e o aumento do uso da pena de morte reduziram ligeiramente a incidência destes eventos, mas os efeitos nunca foram estatisticamente significativos.

Com mais de 19.600 pessoas assassinadas em 1996, aqueles mortos por chacinas em local público correspondem a 0.2% do total. Ainda assim, estes são assassinatos que certamente atraem atenção nacional e internacional, as vezes por dias após o ataque. Vítimas recontam suas sensações de total desamparo enquanto o assassino metodicamente atira nas suas presas agachadas.

Infelizmente, muito do debate da política governamental é dirigido por uma cobertura assimétrica do uso de armas. Eventos trágicos como esse de Arkansas recebem maciça cobertura jornalística, como eles devem, mas discussões sobre as 2.5 milhões de vezes por ano que pessoas usam armas defensivamente-- incluindo os casos onde chacinas públicas são interrompidas antes que elas aconteçam-- são ignoradas. Estórias dramáticas de mães que previnem o sequestro de suas crianças por ladrões de carro raramente chegam a sair no noticiário local.

Tentativas de banir armas das escolas, independente de quão boas as intenções, saíram pela culatra. Em vez de tornar as escolas seguras para as crianças, nós as tornamos seguras para aqueles que intencionam machucar nossas crianças. A atual política das escolas é demitir professores que mesmo por acidente portam armas, normalmente legais, nas escolas. Nós deveríamos considerar a reversão de tal política e o começo da premiação de professores que assumem a responsabilidade de ajudar na proteção de nossas crianças.

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*n.t.: 'feiras de armas', em inglês 'gun shows', são feiras onde se realiza a compra e venda de armas, munições e acessórios.
Copyright: John Lott Jr. permitiu que o editor deste sítio publicasse tradução de suas cartas.

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