Mitos Sobre o Controle de Armas III

Townhall.com, 28 de Novembro de 2002


Por Thomas Sowell, atual membro sênior 'Rose e Milton Friedman' do Instituto Hoover da Universidade de Stanford. Sua produção literaria inclui mais de 20 livros nas áreas econômica, social e política, inúmeros artigos em jornais acadêmicos e uma coluna na revista Forbes. Sowell se graduou Magna Cum Laude em Harvard (1958), fez mestrado em economia na Universidade de Columbia (1959) e Ph.D. em economia na Universidade de Chicago (1968).

A maioria das pessoas a favor de leis antiarmas apóiam tais leis porque acreditam que elas (as leis) vão reduzir o número de mortes cometidas com armas de fogo. Tais pessoas não são o problema. Suas opiniões podem mudar quando elas compreendem que os fatos são bem diferentes daquilo que elas imaginavam ou foram levadas a imaginar.

O problema é com tipos diferentes de pessoas, em geral em posições de liderança, cujo apoio a leis antiarmas é forte o suficiente para se sobrepor aos fatos. Quando o estudo empírico de John Lott sobre os efeitos das leis antiarmas mostrou que a posse de armas tende na média a diminuir a criminalidade, em particular os homicídios, ele ofereceu uma cópia do estudo a um membro de grupo pró leis antiarmas, mas ela se recusou a ver o estudo.

Mais tarde, quando o estudo foi publico em um livro chamado “Mais Armas, Menos Crimes” (n.t.: “More Guns, Less Crime”), a ABC News entrou em contato com esta mesma mulher para saber seus comentários e ela descreveu o estudo como “defeituoso”. Quando Lott ligou para ela para perguntar como ela poderia descrever o estudo como defeituoso sem tê-lo lido, ela bateu o telefone na cara dele.

Claramente os fatos não são cruciais para esta defensora das leis antiarmas--ou para muitos outros fanáticos. Nem pode a lista de pessoas pró e contra leis antiarmas ser explicada pelos fatos igualmente disponíveis para pessoas em todas as posições do espectro ideológico, afinal os esquerdistas lutam por leis antiarmas mais restritas e os liberais (n.t.: “liberais” aqui no sentido clássico, não no atual sentido americano) resistem.

Enquanto o estudo de John Lott é talvez o mais conhecido mostrando que a maior disponibilidade de armas diminui a criminalidade, outros estudos com conclusões semelhantes são “À Queima-Roupa” (n.t.: “Pointblank”), por Gary Kleck, e o mais recente livro “Armas e Violência” (n.t.: “Guns and Violence”), por Joyce Lee Malcolm.

E os estudos do outro lado do debate? Dois amplamente divulgados são um artigo que saiu no New England Journal of Medicine em 1993 e um livro publicado em 2000 chamado “Armando a América” (n.t.: “Arming America"), sobre a história da posse de armas neste país (EUA).

O artigo do jornal acadêmico de medicina alegava que armas em casa aumentam as chances de violência e morte. Isto foi baseado numa comparação entre pessoas que foram mortas em casa com uma amostra de pessoas similares na população. Aqueles que foram mortos em casa tinham armas em casa com maior freqüência.

O que é realmente estranho sobre este artigo num jornal de medicina é que ele segue a mesma linha de raciocínio dos que cometem a falácia de julgar hospitais pelo índice de óbitos. As pessoas que vão para os hospitais estão sob maior risco de morte do que as pessoas que não vão. Isto torna os hospitais perigosos? Ou mostra que as pessoas que vão para os hospitais já estão sob maior risco?

E de fato, o índice de óbitos num dos melhores hospitais do mundo pode ser maior do que o índice de um hospital local porque as pessoas com problemas médicos mais complicados, em geral, procuram hospitais com os melhores especialistas e os melhores equipamentos.

Da mesma forma que seria falacioso assumir que pessoas que procuram diferentes hospitais estão sob o mesmo risco de saúde, é falacioso também assumir que as pessoas que decidiram manter uma arma em casa estão inicialmente sob tanto risco de vida quanto as pessoas que decidiram não manter uma arma. Algumas eram criminosos que foram mortos pela polícia. Uma comparação de coisas diferentes não prova nada.

O mais recente livro antiarmas, por Michael Bellesiles da Emory University, recebeu abundantes elogios em órgãos da intelligentsia esquerdista como o jornal New York Times e o New York Review of Books, além de um prestigioso prêmio de história. Aí alguns pesquisadores começaram a verificar as evidências do autor.

O resultado final foi a renúncia do professor Bellesiles após uma investigação da sua pesquisa levantar dúvidas quanto a sua “integridade acadêmica”. Mas é pouco provável que isto barre a citação desta pesquisa pelos antiarmas. (n.t.: O prêmio de história também foi revogado e o livro não foi mais impresso. Leia aqui sobre a saga do “Armando a América” e sobre maneira como este escândalo foi mencionado no Brasil.)

Fatos não são o ponto central para os fanáticos antiarmas, que tipicamente compartilham a visão esquerdista do mundo na qual sua sabedoria e virtude superiores precisam ser impostas sobre os outros, seja em relação às armas, ao meio ambiente ou a outros assuntos.

Quando John Lott perguntou à ativista antiarmas se ela gostaria de dar uma olhada nos fatos reunidos pelo seu estudo, ele deve ter imaginado que a questão era meramente a busca da melhor política pública. Mas o que estava em jogo era toda uma visão da sociedade e o sentido de vida da ativista. Não foi à toa que ela não quis correr o risco de encarar os fatos.

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