Uma fuga anunciada
Antonio Werneck, Jan Theophilo, Marcelo Dutra e Vera Araújo
www.oglobo.com.br, 30/5/03

A Polícia Militar tinha conhecimento de que o seqüestrador Cláudio Roberto Pacheco, o Sussuquinha — um dos mais perigosos do Rio — planejava uma fuga da carceragem do Batalhão de Choque, no Centro. A informação chegou segunda-feira ao Disque-Denúncia, que funciona no prédio da Secretaria de Segurança Pública, e foi repassada ao comando da PM e do próprio Batalhão da Choque. Detalhista, o informante revelou inclusive o período em que a fuga ocorreria: entres os dias 27 (terça-feira) e 29 (ontem). Apesar disso, nenhuma providência foi tomada e Sussuquinha fugiu ontem de madrugada pela porta da frente, depois de serrar duas grades da cela onde o traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, esteve preso ano passado.

O coronel Renato Hottz, comandante-geral da PM, confirmou ter recebido a denúncia. Ele explicou que a informação do Disque-Denúncia foi repassada aos “canais competentes”.

— É nossa praxe apostar em todos os informes que nos chegam. Principalmente quando anunciam ações de bandidos contra unidades prisionais, delegacias, ou quando tratam de fuga. A difusão foi feita e repassada ao comando da Batalhão de Choque. E eu não tenho dúvidas: houve conivência — disse Hottz.

A fuga de Sussuquinha, que chegou ao quartel no dia 2 de maio, teria ocorrido entre 2h e 5h, quando o oficial de dia comunicou o caso ao comandante do batalhão, coronel Jorge Duarte. Pelo menos seis policiais deveriam estar de plantão no momento da fuga. Ninguém viu nada. Por decisão do secretário de Segurança, Anthony Garotinho, o coronel Jorge Duarte foi exonerado e 13 PMs foram autuados em flagrante por facilitação na fuga.

Garotinho disse que, entre os afastados, está o capitão Viegas, chefe do Serviço Reservado do batalhão, apontado como um dos responsáveis pela fuga de Sussuquinha.

— Nosso serviço de inteligência descobriu que ele sabia sobre a fuga e nada fez. O comandante Jorge Duarte foi exonerado, pois foi omisso. Eu tive informações de que Sussuquinha foi visitado por PMs e um policial civil que é parente dele — disse o secretário.

Para Garotinho, a fuga foi paga:

— Não tenho idéia do valor. Há um conjunto de informações que não posso revelar para não atrapalhar as investigações. Ele fugiu com a conivência destes policiais vagabundos que sujam a imagem da Polícia Militar.

Garotinho afirmou que a fuga havia sido planejada há bastante tempo e que até as grades serradas teriam sido uma forma de simular que houve dificuldades para o bandido deixar o quartel, que foi construído como uma fortaleza. Ele negou que Sussuquinha tenha fugido vestido com o uniforme da PM.

Policial diz que número de guardas foi reduzido

Um policial do Batalhão de Choque, que pediu para não ser identificado, revelou ao GLOBO que, mesmo sabendo da ameaça de fuga do seqüestrador, o coronel Duarte reduziu o número de guardas próximo à cela do bandido. O plantão era, segundo o policial, feito por três guardas que se revezavam em escalas de duas horas de serviço por quatro de descanso. Esta semana o serviço ficou a cargo de um policial que fazia um plantão de 12 horas seguidas. A medida teria sido tomada com o conhecimento do comando geral da PM para reforçar o policiamento nas ruas da cidade.

A cela onde Sussuquinha estava preso é considerada de segurança máxima. Fora construída para receber Beira-Mar em setembro. Com cerca de nove metros quadrados e um banheiro, é tipo gaiola (cercada de grades) e monitorada por câmeras 24 horas por dia. As imagens são observadas na sala do oficial de dia, mas não são gravadas. No corredor da cela, ainda há uma sentinela e pelo menos três homens guardam o portão de entrada e saída do quartel.

Sussuquinha cresceu no crime roubando carros nos bairros de Abolição, Méier e Engenho de Dentro. Logo depois passou a atuar em seqüestros. É suspeito de mais de 30, mas foi condenado por cinco. Sua ficha inclui outros crimes: receptação, tráfico de drogas, uso de documentos falsos e assaltos. Tem ao todo 143 anos de prisão para cumprir.

Explicar como o bandido foi parar, apesar de sua periculosidade, no Batalhão do Choque, é tarefa complicada: uma sucessão de ofícios timbrados fez o criminoso mudar de cadeia em várias ocasiões. Sussuquinha, em 28 de fevereiro de 2002, foi transferido do Presídio Ary Franco para o Presídio de Franco da Rocha, em São Paulo. Em abril deste ano, voltou para o Ary Franco. Mas as datas de seu retorno são duas: para a Secretaria estadual de Administração Penitenciária, foi no dia 10. Para a Vara de Execuções Penais, foi após o dia 22.

Ofício em poder da Secretaria de Administração Penitenciária atesta que Sussuquinha foi transferido para a Polinter no dia 25 de abril, depois de um pedido feito por uma promotora e pelo delegado Álvaro Lins, chefe de Polícia Civil. Tanta a promotora como o delegado alegavam que Sussuquinha corria risco de vida depois de delatar cúmplices da participação na morte de Sidneya dos Santos de Jesus, então diretora de Bangu I, em setembro de 2000.

— Só fui consultado sobre a transferência do Ary Franco para a Polinter. Nem sabia que Sussuquinha estava preso no Batalhão de Choque — disse Astério Pereira dos Santos, secretário de Administração Penitenciária.

Em nota, o Ministério Público diz o contrário: que “apenas intercedeu junto à Secretaria estadual de Administração Penitenciária para que o preso fosse colocado em local seguro”. Também acrescenta que, por sugestão da secretaria, “um representante do MP estadual procurou a Polícia Militar e obteve dela garantias de que Sussuquinha ficaria seguro na carceragem do Batalhão de Choque”.

Ontem à tarde, Garotinho afirmou que Sussuquinha havia sido transferido em maio da Polinter para o Batalhão de Choque a pedido de uma promotora cujo nome não revelou.

— Isso não tem explicação. É uma afronta. Fui informado de que ele serrou a grade mas, mesmo com ela serrada, ele não pode fugir do batalhão sem haver conivência. Os 13 policiais que estavam de guarda estão presos e ficarão na mesma cela de onde ele fugiu.

Álvaro Lins afirmou ser correta a nota do Ministério Público.

— Ele estava disposto a colaborar com a polícia fornecendo informações sobre a morte da diretora Sidneya Santos de Jesus. Nós sugerimos que o Batalhão de Choque fosse utilizado até que encontrássemos um local definitivo. Eu tenho certeza de que aquela é uma unidade segura. O que houve foi total negligência da parte das pessoas responsáveis pela guarda — disse Álvaro Lins.

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