Terror e execução na Av. Brasil
www.oglobo.com.br, 1 de Março de 2003
Marcelo Dutra

Tiros. Um ônibus urbano incendiado por coquetel molotov. Outro, de viagem, metralhado. Pânico. Arrastão. Um motorista morto. A Avenida Brasil fechada por três horas nos dois sentidos. O cenário, de guerra, foi montado no início da madrugada de ontem, com personagens reais, numa das avenidas mais importantes da cidade. Enquanto o traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, passava a sua primeira noite trancafiado num presídio no interior de São Paulo, horas depois de dizer que a onda de terror continuaria no Rio, cerca de 30 bandidos da Favela Mandela, armados de fuzis, pistolas e revólveres, entravam em ação na Avenida Brasil, transformando o trecho na altura de Manguinhos num campo de batalha.

Os criminosos começaram a agir por volta da meia-noite, quando um bando da Mandela, ligado ao Comando Vermelho — a mesma facção de Beira-Mar — roubou dois carros perto do entroncamento da Linha Amarela, no sentido Centro. Após o roubo, o bando se deparou com um comboio da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil e abriu fogo contra os policiais. Durante o tiroteio, outros bandidos, da mesma favela, pararam e incendiaram um ônibus urbano da empresa Rio Minho (Niterói-Campo Grande) na pista sentido Centro da Avenida Brasil.

Militar se recusou a entregar seu carro

Enquanto o ônibus era consumido pelo fogo, a quadrilha assaltava motoristas que passavam de carro e eram obrigados a reduzir a velocidade. Um deles, o segundo-tenente da Marinha Érico Valle Petzold, de 33 anos, que se recusou a entregar seu carro, um Palio, foi executado friamente, com quatro tiros. A irmã do militar, Ana Petzold, que estava no carro com os amigos Euclides Pereira Alves Júnior e Aline de Carvalho, conseguiu correr e pedir ajuda.

Assustados, motoristas começaram a dar marcha a ré. Um ônibus da 1001, que ia de Niterói para São Paulo após uma parada na Rodoviária Novo Rio, com 26 passageiros e dois motoristas a bordo, aproximou-se do local da execução e acabou virando alvo. Os bandidos metralharam o ônibus e depois lançaram contra ele um coquetel molotov, sem dar aos passageiros tempo para descer. Apavorados, todos se abaixaram para não morrer. As poltronas ficaram perfuradas e a lataria ficou em chamas.

— Fiquei desesperada quando ouvi o barulho dos tiros e o ônibus parando bruscamente. Pensei que morreríamos ali mesmo. Nunca imaginei que fosse passar por isso. Pensei: “Puxa vida, não morri na mesa de operação quando tive câncer, nem numa tempestade marítima quando ia para os Estados Unidos, há dez anos, para morrer na Avenida Brasil?” Enquanto eu via as chamas, pensava no meu marido, na minha vida e na minha mãe que faz 95 anos no carnaval — contou a aposentada Ruth de Souza Gondim, de 75 anos, que ia para Ribeirão Preto visitar a mãe.

Os passageiros só puderam desembarcar com a chegada da polícia, cinco minutos depois. Mulheres, crianças e idosos foram retirados e colocados sentados junto à mureta que divide a pista. Alguns choravam, outros estavam petrificados de medo.

O motorista do ônibus, que não quis se identificar, disse que foi salvo por um milagre. Ele contou que se abaixou segundos antes de os traficantes atirarem contra o pára-brisa. O tiro que perfurou o vidro quase atingiu a dentista Maria Amélia Carvalhaes Machado, de 42 anos, sentada num dos primeiros bancos. Ela foi ferida por estilhaços de vidro. Outro passageiro, o engenheiro Fernando Vieira Ferreira, contou que os traficantes queriam executar quem descesse do ônibus em chamas.

— Graças a Deus alguém gritou para que nos abaixássemos para nos proteger dos tiros em vez de sair correndo. Seria nossa morte. Foi um pandemônio, com crianças e gente de idade gritando e chorando.

Quadrilha rival atacou traficantes

Fernando contou que os traficantes só pararam de atirar no ônibus quando tiveram que se defender de criminosos da Vila do João, dominada pela facção rival Terceiro Comando, que começaram a disparar em direção ao bando. Com a chegada dos policiais da Core, os passageiros ficaram no meio do fogo cruzado. Os criminosos fugiram, mas continuaram atirando escondidos na refinaria.

De acordo com o delegado Reginaldo Valveras, da Delegacia de Roubos e Furtos (DRF), por causa do tumulto na Avenida Brasil, mais de cem policiais civis e militares, com o apoio de um helicóptero, invadiram a Vila do João e a Favela de Manguinhos ainda de madrugada. As principais avenidas da região também foram ocupadas pela polícia.

De manhã, uma faixa com os dizeres “Direitos humanos, já, para Bangu I. Senão a guerra do terror vai continuar”, acompanhados da sigla PJL (paz, justiça e liberdade, o lema do Comando Vermelho), apareceu afixada na Avenida Brasil, num muro junto à Fiocruz, em Manguinhos. A governadora Rosinha Matheus reagiu indignada à provocação:

— Direitos humanos são para quem está aqui fora, livre, e não cometeu nenhum ato ilícito. Este direito tem que ser preservado à população de bem. A eles (aos bandidos presos) cabe o respeito como pessoa, mas praticaram atos ilícitos e têm que pagar por isso.



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