"Vocês tem as armas. Tudo que tenho é um crucifixo"

Madre Macaria dirigiu 50 quilômetros de Devic à Pristina pra pedir ajuda aos soldados da O.T.A.N.. Sendo sérvia, ela precentiu que seu monastério e as freiras que lá habitavam estavam sob a ameaça de uma iminente violência por parte dos membros albaneses da K.L.A. (Kosovo Liberation Army, ou Exército de Libertação de Kosovo). Ela apelou aos soldados britânicos:

"Por favor, venham e nos salvem. Vocês tem as armas. Tudo que tenho é um crucifixo".

Mas os soldados responderam que não podiam ajudar-- precisavam esperar por "reforços".

As freiras, obviamente, são a favor da paz, tanto ou mais do que as celebridades brasileiras que professam tal devoção. E exatamente por serem pela paz queriam uma defesa armada: para que um ataque não ocorresse e ninguém se machucasse.

Três dias mais tarde, o monastério medieval foi atacado. As instalações foram saqueadas e as freiras humilhadas, sendo que uma delas, de 24 anos, foi estuprada pelos soldados da K.L.A..

Este relato epitomiza, em camera lenta, a apreenção de grande fração da população brasileira que se opõe ao desarmamento civil: a pessoa pacífica, a injustiça iminente, a dependência e ausência do estado, e a ocorrência da tragédia.

Se engana aquele que pensa que a oposição do desarmamento civil é contra a paz; nada poderia ser mais distante da realidade. Porém, como o exemplo acima demonstra, não é racional a expectativa de paz onde co-existem a maldade e o desequilíbrio de forças. Isto é um convite à barbárie, a história humana nos bem ensina.

O cenário das freiras seria ainda mais trágico se ocorresse no Brasil que F.H. almeja. As freiras, após serem negadas ajuda policial, poderiam pedir ajuda armada aos civis. Caso houvessem armas disponíveis, em violação da lei do desarmamento, seus donos teriam três opções: negar ajuda e armas, negar ajuda oferecendo armas somente, ou oferecer ajuda e armas. A primeira opção, que resultaria na violação do monastério e das freiras, como ocorreu na realidade, seria a mais conveniente para os que só querem correr risco de prisão no caso de defesa da família. A segunda e terceira opções resultariam em 2 anos de prisão para as freiras e seus defensores, respectivamente. Todas opções que deixam o civil escolhendo entre a menor das injustiças. Todas frutos da criminalização da auto-defesa armada do civil.

O útimo comentário, não menos marcante, é de um soldado francês que chegou à Devic após a violência:

"Infelizmente, não podemos estar em todo local a todo momento".

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[Este episódio foi noticiado no New York Post, 21/6/99]

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